segunda-feira, outubro 12, 2009

I'm sitting here alone in darkness
waiting to be free,
Lonely and forlorn I'm crying
I long for my time to come
death means just life
Please let me die in solitude
Hate is my only friend
pain is my father
torment is delight to me
Death is my sanctuary
I seek it with pleasure
Please let me die in solitude
Receive my sacrifice
my lifeblood is exhausted
no one gave love and understanding
Hear these words
vilifiers and pretenders
and please let me die in solitude
Earth to earth
Ashes to ashes
Dust to dust

Candlemass - Solitude

terça-feira, janeiro 23, 2007

tema velho, graça actual

«*O acto sexual é para ter filhos*» - disse na Assembleia da República, no
dia 3 de Abril de 1982, o então deputado do CDS João Morgado num debate
sobre a legalização do aborto.

A resposta de Natália Correia, em poema - publicado depois pelo Diário de
Lisboa em 5 de Abril desse ano - fez rir todas as bancadas parlamentares,
sem excepção, tendo os trabalhos parlamentares sido interrompidos por isso:

Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.

Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

( Natália Correia - 3 de Abril de 1982 )

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Manifesto Anti-Dantas

Basta PUM Basta!!!

Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!

Abaixo a geração!

Morra o Dantas, morra! PIM!

Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!

Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco!

O Dantas é um cigano!

O Dantas é meio cigano!

O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias para cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!

O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!

O Dantas é um habilidoso!

O Dantas veste-se mal!

O Dantas usa ceroulas de malha!

O Dantas especula e inocula os concubinos!

O Dantas é Dantas!

O Dantas é Júlio!

Morra o Dantas, morra! PIM!

O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d'Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!

E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu!

O Dantas é um ciganão!

Não é preciso ir pró Rossio para se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!

Não é preciso disfarçar-se para se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!

Morra o Dantas, morra! PIM!

O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever!

O Dantas é um autómato que deita para fora o que a gente já sabe o que vai sair... Mas é preciso deitar dinheiro!

O Dantas é um soneto dele próprio!

O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.

O Dantas nu é horroroso!

O Dantas cheira mal da boca!

Morra o Dantas, morra! PIM!

O Dantas é o escárnio da consciência!

Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!

O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!

O Dantas é a meta da decadência mental!

E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!

E ainda há quem lhe estenda a mão!

E quem lhe lave a roupa!

E quem tenha dó do Dantas!

E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero!

Vocês não sabem quem é a soror Mariana do Dantas? Eu vou-lhes contar:

A princípio, por cartazes, entrevistas e outras preparações com as quais nada temos que ver, pensei tratar-se de soror Mariana Alcoforado a pseudo autora daquelas cartas francesas que dois ilustres senhores desta terra não descansaram enquanto não estragaram para português, quando subiu o pano também não fui capaz de distinguir porque era noite muito escura e só depois de meio acto é que descobri que era de madrugada porque o bispo de Beja disse que tinha estado à espera do nascer do Sol!

A Mariana vem descendo uma escada estreitíssima mas não vem só, traz também o Chamilly que eu não cheguei a ver, ouvindo apenas uma voz muito conhecida aqui na Brasileira do Chiado. Pouco depois o bispo de Beja é que me disse que ele trazia calções vermelhos.

A Mariana e o Chamilly estão sozinhos em cena, e às escuras, dando a entender perfeitamente que fizeram indecências no quarto. Depois o Chamilly, completamente satisfeito, despede-se e salta pela janela com grande mágoa da freira lacrimosa. E ainda hoje os turistas têm ocasião de observar as grades arrombadas da janela do quinto andar do Convento da Conceição de Beja na Rua do Touro, por onde se diz que fugiu o célebre capitão de cavalos em Paris e dentista em Lisboa.

A Mariana que é histérica começa a chorar desatinadamente nos braços da sua confidente e excelente pau de cabeleira soror Inês.

Vêm descendo pela dita estreitíssima escada, várias Marianas, todas iguais e de candeias acesas, menos uma que usa óculos e bengala e ainda toda curvada prá frente o que quer dizer que é abadessa.
E seria até uma excelente personificação das bruxas de Goya se quando falasse não tivesse aquela voz tão fresca e maviosa da Tia Felicidade da vizinha do lado. E reparando nos dois vultos interroga espaçadamente com cadência, austeridade e imensa falta de corda...

Quem está aí?... E de candeias apagadas?

- Foi o vento, dizem as pobres inocentes varadas de terror... E a abadessa que só é velha nos óculos, na bengala e em andar curvada prá frente manda tocar a sineta que é um dó d'alma o ouvi-la assim tão debilitada. Vão todas pró coro, mas eis que, de repente, batem no portão sem se anunciar nem limpar-se da poeira, sobe a escada e entra pelo salão um bispo de Beja que quando era novo fez brejeirices com a menina do chocolate.

Agora completamente emendado revela à abadessa que sabe por cartas que há homens que vão às mulheres do convento e que ainda há pouco vira um de cavalos a saltar pela janela. A abadessa diz que efectivamente já há tempos que vinha dando pela falta de galinhas e tão inocentinha, coitada, que naqueles oitenta anos ainda não teve tempo para descobrir a razão da humanidade estar dividida em homens e mulheres.

Depois de sérios embaraços do bispo é que ela deu com o atrevimento e mandou chamar as duas freiras de há pouco com as candeias apagadas. Nesta altura esta peça policial toma uma pedaço de interesse porque o bispo ora parece um polícia de investigação disfarçado em bispo, ora um bispo com a falta de delicadeza de um polícia de investigação, e tão perspicaz que descobre em menos de meio minuto o que o público já está farto de saber - que a Mariana dormiu com o Noel. O pior é que a Mariana foi à serra com as indiscrições do bispo e desata a berrar, a berrar como quem se estava marimbando pra tudo aquilo. Esteve mesmo muito perto de se estrear com um par de murros na coroa do bispo no que se mostrou de um atrevimento, de uma insolência e de uma decisão refilona que excedeu todas as expectativas.

Ouve-se uma corneta tocar uma marcha de clarins e Mariana sentindo nas patas dos cavalos toda a alma do seu preferido foi qual pardalito engaiolado a correr até às grades da janela gritar desalmadamente pelo seu Noel. Grita, assobia e rodopia e pia e rasga-se e magoa-se e cai de costas com um acidente, do que já previamente tinha avisado o público e o pano cai e o espectador também cai da paciência abaixo e desata numa destas pateadas tão enormes e tão monumentais que todos os jornais de Lisboa no dia seguinte foram unânimes naquele êxito teatral do Dantas.

A única consolação que os espectadores decentes tiveram foi a certeza de que aquilo não era a soror Mariana Alcoforado mas sim uma Merdariana Aldantascufurado que tinha cheliques e exageros sexuais.

Continue o senhor Dantas a escrever assim que há-de ganhar muito com o Alcufurado e há-de ver que ainda apanha uma estátua de prata por um ourives do Porto, e uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional do «Século» a favor dos feridos da guerra, e a Praça de Camões mudada em Praça Dr. Júlio Dantas, e com festas da cidade pelos aniversários, e sabonetes em conta «Júlio Dantas» e pasta Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas e Niveína Dantas, e comprimidos Dantas, e autoclismos Dantas e Dantas, Dantas, Dantas, Dantas... E limonadas Dantas- Magnésia.

E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.

E fique sabendo o Dantas que se todos fossem como eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar.

Mas julgais que nisto se resume literatura portuguesa? Não Mil vezes não!

Temos, além disto o Chianca que já fez rimas prá Aljubarrota que deixou de ser a derrota dos Castelhanos pra ser a derrota do Chianca.

E as pinoquices de Vasco Mendonça Alves passadas no tempo da avozinha! E as infelicidades de Ramada Curto! E o talento insólito de Urbano Rodrigues! E as gaitadas do Brun! E as traduções só pra homem do ilustríssimos excelentíssimo senhor Mello Barreto! E o frei Matta Nunes Moxo! E a Inês Sifilítica do Faustino! E as imbecilidades do Sousa Costa! E mais pedantices do Dantas! E Alberto Sousa, o Dantas do desenho! E os jornalistas do Século e da Capital e do Notícias e do Paiz e do Dia e da Nação e da República e da Lucta e de todos, todos os jornais! E os actores de todos os teatros! E todos os pintores das Belas-Artes e todos os artistas de Portugal que eu não gosto. E os da Águia do Porto e os palermas de Coimbra! E a estupidez do Oldemiro César e o Dr. José de Figueiredo Amante do Museu e ah oh os Sousa Pinto hu hi e os burros de Cacilhas e os menos do Alfredo Guisado! E (o) raquítico Albino Forjaz de Sampaio, crítico da Lucta a quem Fialho com imensa piada intrujou de que tinha talento! E todos os que são políticos e artistas! E as exposições anuais das Belas-Artes! E todas as maquetas do Marquês de Pombal! E as de Camões em Paris; e os Vaz, os Estrela, os Lacerda, os Lucena, os Rosa, os Costa, os Almeida, os Camacho, os Cunha, os Carneiro, os Barros, os Silva, os Gomes, os velhos, os idiotas, os arranjistas, os impotentes, os celerados, os vendidos, os imbecis, os párias, os ascetas, os Lopes, os Peixotos, os Motta, os Godinho, os Teixeira, os Câmara, os diabo que os leve, os Constantino, os Tertuliano, os Grave, os Mântua, os Bahia, os Mendonça, os Brazão, os Matos, os Alves, os Albuquerques, os Sousas e todos os Dantas que houver por aí!!!!!!!!!

E as convicções urgentes do homem Cristo Pai e as convicções catitas do homem Cristo Filho!...

E os concertos do Blanch! E as estátuas ao leme, ao Eça e ao despertar e a tudo! E tudo o que seja arte em Portugal! E tudo! Tudo por causa do Dantas!

Morra o Dantas, morra! PIM!

Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação do país mais atrasado da Europa e de todo o Mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degradados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia - se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!

Morra o Dantas, morra! PIM!

José de Almada Negreiros
Poeta d'Orpheu
Futurista E Tudo

Artémis

par Gérard Nerval

La Treizième revient... C'est encore la première;
Et c'est toujours la seule, - ou c'est le seul moment;
Car es-tu reine, ô toi!la première ou dernière?
Es-tu roi, toi le seul ou le dernier amant?...

aimez qui vous aima du berceau dans la bière;
Celle que j'aimai seul m'aime encor tendrement:
C'est la mort - ou la morte... O délice! Ô tourment!
Las rose qu'elle tient, c'est Rose trémière.

Sainte napolitaine aux mains pleines de feux,
Rose au coeur voilet, fleur de sainte Gudule:
As-tu trouvé ta croix dans le désert des cieux?

Roses blanches, tombez! Vous insultez nos dieux,
Tombez, fantômes blanc, de votre ciel qui brûle:
- Las sainte de l'abîme est plus sainte à mes yeux!

The Vincent

Poem written by Tim Burton.

Inspired by Edgar Allen Poe's 'The Raven' and children's stories by Dr. Seuss.


Vincent Malloy is seven years old
He's polite and always does as he's told
For a boy his age, he's considerate and nice
But he wants to be just like Vincent Price

He doesn't mind living with his sister, dog, and cats
Though he'd rather share a home with spiders and bats
There he could reflect on the horrors he has invented
and wander dark hallways alone and tormented

Vincent is nice when his aunt comes to see him
But imagines dipping her in wax for his wax museum
He likes to experiment on his dog Abocrombie
In the hopes of creating a horrible zombie
So that he and his horrible zombie dog
could go searching for victims in the London fog

His thoughts aren't only of ghoulish crime
He likes to paint and read to pass some of the time
While other kids read books like "Go Jane Go"
Vincent's favorite author is Edgar Allen Poe.

One night while reading a gruesome tale
he read a passage that made him turn pale
Such horrible news he could not survive
For his beautiful wife had been buried alive

He dug out her grave to make sure she was dead
Unaware that her grave was his mother's flower bed
His mother sent Vincent off to his room
He knew he'd been banished to the tower of doom
where he was sentenced to spend the rest of his life
alone with the portrait of his beautiful wife.

While alone and insane incased in his doom
Vincent's mother burst suddenly into the room
She said, "If you want, you can go out and play
It's sunny outside and a beautiful day."

Vincent tried to talk but he just couldn't speak
the years of isolation had made him quite weak
So he took out some paper and scrawled with a pen:
"I'm possessed by this house and can never leave it again."

His mother said, "You are NOT possessed and you are NOT almost dead
These games you play are all in your head
You are NOT Vincent Price, you're Vincent Malloy
You're not tormented or insane, you're just a young boy
You're seven years old, and you are my son
I want you to get outside and have some real fun."

Her anger now spent, she walked out through the hall
While Vincent backed slowly against the wall
The room started to sway, to shiver and creak
His horrored insanity had reached its peak
He saw Abocrombie, his zombie slave
and heard his wife call from beyond the grave

She spoke through her coffin and made ghoulish demands
While through cracking walls reached skeleton hands
Every horror in his life that had crept through his dreams
swept his mad laughter to terrified screams

To escape the badness, he reached for the door
but fell limp and lifeless down on the floor
His voice was soft and very slow
As he quoted "The Raven" by Edgar Allen Poe:
"And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted...Nevermore."

Um Desabafo

Oh infelicidade desta mata com as suas silvas que dilaceram as minhas veias, ensanguentando-me a minha alma perdida num limbo de seres corruptos e errantes desta vida superficial a que chamam de Humana.

As labaredas deste fogo interior que consome cada pensamento luxuriante que descrevo nesta pena de corvo negro como os teus olhos, que me observam numa latência de adoração de cada milímetro do meu ser, como de um deus menor se tratasse...

merecerá o meu ser esta julação deliciosa?

Cada meu ponto nevrálgico vibra na presença do teu corpo imaculado, tal mata virgem nunca antes tocada por seres impuros, que observo pacientemente como se fosse a primeira e ultima vez que os meus sentidos pudessem o contemplar

Oh abismo temporal que separa estes dois seres misantrópicos destinados a ser um só.
Com tanto a dar ao mundo e criar o seu próprio onde mais nenhum ser poderá entrar, tal éden desvirtuado pela podridão do ser que nos rodeia e tenta separar...

17:00 06-10-2006

Sentença proferida em 1487

Do Arquivo Nacional da Torre do Tombo

SENTENÇA PROFERIDA EM 1487 NO PROCESSO CONTRA O PRIOR DE TRANCOSO
(Autos arquivados na Torre do Tombo, armário 5.o,maço 7)

"Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas, da própria mãe teve dois filhos.

Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e três mulheres".

[agora vem o melhor:]

"El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou por em liberdade aos dezassete dias do mês de Março de 1487, com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo e guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo".

Agora pergunto-me: serão estes os argumentos dos apologistas do NÃO à IVG???

Um Assunto de Mulheres

Por Inês Pedrosa, in Expresso Ed. nº 1526, 26 Janeiro 2002


«A enfermeira Maria do Céu fazia-se cobrar pelos seus serviços - até porque não tinha iates nem fundações a trabalhar para ela. Digamos que era um sistema afegão, da época talibã - que é o que vigora ainda hoje, nestes assuntos de mulheres, no Portugal do euro.»

Muitas mulheres portuguesas ainda são praticantes do masoquismo optimista que as faz acreditar que, se eles lhes batem ou se lhes proíbem o uso de métodos contraceptivos, é porque são ciumentos, e isso, lá bem no fundo, significa que lhes têm amor. Algumas mulheres são tão preguiçosamente optimistas que acham que a sua abstenção pode ser inteligentemente interpretada. Conheço muitas que, aquando do referendo sobre o aborto, se recusaram a votar por lhes parecer indigno o próprio referendo, que vinha desautorizar uma lei já aprovada na Assembleia da República. Perguntavam, essas ingénuas: «Então não é para nos representarem e legislarem que a gente paga aos deputados? E não choca ninguém, o dinheiro que se gasta a referendar uma lei já aprovada?» Acreditaram, estas optimistas-limite, que uma abstenção maciça os convenceria de que aquele referendo era iníquo. Esqueceram-se de que os deliberadores eram, simples e esmagadoramente, homens. Donde, concluiu-se que os 68,5% de abstenção eram a prova de que a maior parte da população não estava interessada nesses assuntos de mulheres.

Há também um determinado tipo de mulher que, desenganada dos movimentos colectivos, respira fundo e diz, à homem: «Agora, eu!» Sei de médicas que, depois de terem interrompido gravidezes a dezenas de mulheres, num risco assumido por solidariedade, votaram contra, temendo que a liberalização as obrigasse a fazer aquilo que dantes faziam por escolha. Neste ponto encontramos um dos nós cegos, não só do aborto mas da saúde em Portugal: a ideia arreigada e profundamente autoritária de que os senhores doutores é que têm direito a decidir sobre os destinos do corpo dos pobres ignaros que somos todos nós - e quanto mais pobres, materialmente falando, pior. Sabemos como continuam a nascer crianças com deficiências profundas de mães às quais os médicos sonegaram essa informação, para as impedir - contra a lei - de abortarem, se assim o desejassem. Conheço demasiados casos dilacerantemente reais - e alguém senta esses médicos no banco dos réus? Há semanas, li no «Público» esta cândida confissão da mãe de uma menina deficiente: «A Filipa é uma interrupção». Depois explicava como, detectada tardiamente a deficiência ( mais uma vez por ocultação do seu médico), lhe propuseram, aos seis meses de gravidez, uma interrupção legal - e aconteceu que, como era de prever, dessa interrupção saiu um ser vivo. Porque é que os médicos que fizeram esta tenebrosa «interrupção» são pessoas de bem e a enfermeira-parteira Maria do Céu, agora a cumprir uma pena de oito anos e meio de prisão, é uma criminosa?
E será ela mais criminosa do que, por exemplo, aquele pai condenado, em Março de 2000, pelo Tribunal de Almeida, a uns modestos seis anos e meio de prisão por ter violado e engravidado a própria filha? Será mais criminosa do que aquele homem, condenado em Junho de 2001 pelo Tribunal da Guarda a quatro anos e quatro meses de prisão por ter esfaqueado a mulher?

Porque é que há, logo ali em Badajoz, uma clínica de «tratamento voluntário da gravidez» que se anuncia nos jornais portugueses e em Portugal, com uma lei igual à espanhola, estas clínicas são proibidas, empurrando as mulheres do povo (aquela silenciosa maioria que não tem posses ou apoio para se deslocar a Badajoz) para a mais cruel - e muitas vezes mortal - clandestinidade?

A quem recorrerão agora as mulheres tristes e desesperadas, esmagadas pela miséria, pelo excesso de filhos, pela brutalidade dos maridos, que recorriam aos serviços da enfermeira-parteira Maria do Céu? Às agulhas de crochet? Ao veneno dos ratos? A enfermeira Maria do Céu fazia-se cobrar pelos seus serviços - até porque não tinha iates nem fundações a trabalhar para ela. Digamos que era um sistema afegão, da época talibã - que é o que vigora ainda hoje, nestes assuntos de mulheres, no Portugal do euro. Não havendo dinheiro, Maria do Céu aceitava como penhor coisas que no mundo respeitável dos doutores não se aceitam: pulseiras, relógios, valores diversos. Até um anel de noivado foi encontrado no seu cofre, o que diz muito sobre a solidão destas mulheres.

Mas arriscava, como se viu, vida e liberdade para arranjar a estas infelizes a bênção de uma anestesia, e receitas médicas que lhes permitissem poupar na conta dos medicamentos. Uma série de crimes que, em se tratando de gente desvalida como o era toda esta (enfermeira Maria do Céu incluída), sobrevivendo nos fundos de garagem do Portugal de sucesso, vêm sempre acompanhados do adjectivo «agravado».
Em 1988, Chabrol estreava um filme exemplar sobre a última mulher guilhotinada em França - foi em 1943, por prática de aborto. O filme chama-se «Une Affaire de Femmes» e desenha, sobre o rosto martirizado de Isabelle Huppert, um inesquecível tratado de humanidade.

Algumas mulheres são tão passivamente masoquistas que são capazes de votar contra si mesmas - por causa do padre, do marido, do inferno, da culpa e da vergonha, ferretes máximos do feminino. Mas não conheço nenhuma mulher tão masoquista que tenha prazer em abortar. Isso não existe - posso garanti-lo ao engenheiro António Guterres e a todos os senhores doutores e engenheiros que o acompanharam nesta cruzada medieval contra a dignidade das mulheres. Relembro as derradeiras imagens do filme de Chabrol, o olhar firme e devastado de Isabelle Huppert perguntando ao advogado-estagiário em que o senhor doutor delegara as despedidas derradeiras: «Tem filhos?» Pois é, senhor primeiro-ministro: como essa desgraçada Marie Latour, estas mulheres, que, por sua causa, foram devassadas e humilhadas, têm filhos.

DO YOU REMEMBER?



PLEASE DON'T FORGET THIS!!! IRAN OR USA OR OTHER COUNTRY!!!

quinta-feira, outubro 26, 2006

I was never faithful
And I was never one to trust
Borderlining schizo
And guaranteed to cause a fuss
I was never loyal
Except to my own pleasure zone
I'm forever black-eyed
A product of a broken home

I was never faithful
And I was never one to trust
Borderline bipolar
Forever biting on your nuts
I was never grateful
That's why I spend my days alone
I'm forever black-eyed
A product of a broken home

Black-eyed - placebo

ps: for me i should change the broken home for broken heart

terça-feira, setembro 12, 2006

Nao sejas tão racional. Usa os teus sentidos...

Vazio melancólico é o que sinto.
Consome-me crescendo, imparável;
Torna-se vácuo no escuro. Não, minto.
Torna-se escuro no váco imutável.

Abatido, estou sozinho sem ninguém,
Deixando o tempo correr com desprezo,
enfeitando os cabelos dum alguém,
Unindo os pressupostos de um ser preso.

Só, eu penso. Finjo pensando, sendo
Outro, que tendo algo pra se unir
Deixa sempre as mágoas do alguém morrendo.

Olhos não vejo, canso-me pra ver.
Rir não posso, apenas posso sorrir
Amar não quero, trouxe-A a correr."

Sem data, sem local, incognito, anónimo

O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

Não, não é cansaço...

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar.
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Álvaro de Campos

Começo a conhecer-me. Não existo.

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

Alvaro de Campos

domingo, março 19, 2006

Excerto

Distância e longa ausência prejudicam qualquer amizade, por mais desgostoso que seja admiti-lo. As pessoas que não vemos, mesmo os amigos mais queridos, aos poucos se evaporam no decurso do tempo até ao estado de noções abstractas, e o nosso interesse por elas torna-se cada vez mais racional, de tradição. Por outro lado, conservamos interesse vivo e profundo por aqueles que temos diante dos olhos, nem que sejam apenas os animais de estimação. Tão presa aos sentidos é a natureza humana. Por isso, aqui também são sábias as palavras de Goethe: O tempo presente é um deus poderoso.

Os amigos da casa são chamados assim com justeza, pois são amigos mais da casa do que do dono, portanto, assemelham-se antes aos gatos do que aos cães.

Os amigos dizem-se sinceros; os inimigos o são. Sendo assim, deveríamos usar a censura destes para nosso autoconhecimento, como se fosse um remédio amargo

Arthur Schopenhauer

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

solidao

"A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflecte. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o património de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre."

- Vinicius de Morais

Tristesses de la lune

Ce soir, la lune rêve avec plus de paresse;
Ainsi qu'une beauté, sur de nombreux coussins,
Qui d'une main distraite et légère caresse
Avant de s'endormir le contour de ses seins,

Sur le dos satiné des molles avalanches,
Mourante, elle se livre aux longues pâmoisons,
Et promène ses yeux sur les visions blanches
Qui montent dans l'azur comme des floraisons.

Quand parfois sur ce globe, en sa langueur oisive,
Elle laisse filer une larme furtive,
Un poète pieux, ennemi du sommeil,

Dans le creux de sa main prend cette larme pâle,
Aux reflets irisés comme un fragment d'opale,
Et la met dans son coeur loin des yeux du soleil.

— Charles Baudelaire

quinta-feira, junho 30, 2005

....DEVANEIOS....




... queria tanto ser uma arvore no teu jardim... onde pudesse retirar os nutrientes a essa planta, ate ela sucumbir... e, com os restos mortais dessa planta crescer ainda mais...


(noctem, june 10' 05)


EXISTENCIALISMO

Corrente filosófica que se funda na situação do indivíduo vivendo num universo absurdo, ou sem sentido, em que os homens são dotados de vontade própria. Os existencialistas sustentam que as pessoas são responsáveis pelas suas próprias acções, e o seu único juiz, na medida em que a sua existência afecta a dos outros. A origem do existencialismo é geralmente atribuída ao filósofo dinamarquês Kierkegaard. Entre os seus outros proponentes destacam-se Martin Heidegger, na Alemanha, e Jean-Paul Sartre, em França.

Todos os indivíduos dotados de autoconsciência podem compreender ou intuir a sua própria existência e liberdade, daí que não devam deixar que as suas escolhas sejam limitadas por nada - nem pela razão, nem pela moral. Esta liberdade para escolher conduz à noção de "não-ser", ou "nada", que pode provocar a angústia ou o medo. O existencialismo possui muitas variantes. Kierkegaard salientou a importância da escolha pura na ética e na crença cristã, Sartre procurou combinar o existencialismo com o marxismo.

O pensamento filosófico dos autores existencialistas não se caracteriza nem por uma sistematização racional sobre a vida nem por reflexão abstracta e logicizante acerca do ser humano. O homem é o problema central do existencialismo, não enquanto ser abstracto, com uma natureza definida, mas como um ser concreto, que sofre, que trabalha e ama.

Para os filósofos existencialistas contemporâneos, a existência humana é entendida como algo demasiado fluído e rico e, por isso, escapa a todas as sistematizações abstractas. Assim, para estes autores, acima de tudo a vida é para ser vivida. Faz parte inerente da existência humana o devir, a inquietação, o desespero e a angústia. A existência é algo em aberto, sempre em mudança, e não há nenhum tipo de determinismo ou fatalismo.

A negação de um destino faz da vida um jogo de possíveis entre possíveis. Cabe ao homem, a cada instante, escolher, optar e, por isso mesmo, ele torna-se um ser responsável pela sua vida. A escolha humana traz consigo inevitavelmente a angústia e muitas vezes o desespero.

Para os existencialistas, o indivíduo não pode ser diluído e apagado num todo, uma vez que cada um é um ser concreto, único e de valor insubstituível. Por isso, nesta reflexão, o homem é sempre entendido como um ser individual e concreto, na sua vida quotidiana, no seu contexto particular, e nunca entendido como uma entidade metafísica e abstracta. Nesta medida, os autores existencialistas são aqueles que colocam a existência do homem no plano central das suas reflexões, como dirá Sartre, a existência precede a essência. O homem à partida não está definido, ele é um projecto em construção, cada pessoa é aquilo em que se torna consoante aquilo que faz.

O Existencialismo segundo Kierkegaard

"O existencialismo nunca poderá ser uma teoria como outra qualquer, porque a existência não é, em si, susceptível de teoria. O existencialismo, para Kierkegaard, é apenas a expressão da sua própria vida e a única coisa de geral ou de universal que contém é a exortação que a todos nos dirige para que nos tornemos cristãos. A natureza deste existencialismo só poderá, portanto, ser definida em função das condições que são requeridas por um existir autêntico - existir que se deverá iniciar e intensificar seguidamente, por meio de uma reflexão capaz de fazer, de uma existência vivida, uma existência desejada e pensada. Essas condições podem reduzir-se a três: a necessidade do compromisso e do risco, o primado da subjectividade e a prova da angústia e do desespero."
R.Jolivet, As Doutrinas Existencialistas

O Existencialismo segundo Karl Marx

"O que Marx mais critica é a questão de como compreender o que é o homem. Não é o ter consciência (ser racional), nem tampouco ser um animal político, que confere ao homem sua singularidade, mas ser capaz de produzir suas condições de existência, tanto material quanto ideal, que diferencia o homem."

A essência do homem é não ter essência, a essência do homem é algo que ele próprio constrói, ou seja, a História. "A existência precede a essência"; nenhum ser humano nasce pronto, mas o homem é, em sua essência, produto do meio em que vive, que é construído a partir de suas relações sociais em que cada pessoa se encontra. Assim como o homem produz o seu próprio ambiente, por outro lado, esta produção da condição de existência não é livremente escolhida, mas sim, previamente determinada. O homem pode fazer a sua História mas não pode fazer nas condições por ele escolhidas. O homem é historicamente determinado pelas condições, logo é responsável por todos os seus actos, pois ele é livre para escolher. Logo todas as teorias de Marx estão fundamentadas naquilo que é o homem, ou seja, o que é a sua existência. O Homem é condenado a ser livre.

As relações sociais do homem são tidas pelas relações que o homem mantém com a natureza, onde desenvolve suas práticas, ou seja, o homem se constitui a partir de seu próprio trabalho, e sua sociedade se constitui a partir de suas condições materiais de produção, que dependem de factores naturais (clima, biologia, geografia...) ou seja, relação homem-Natureza, assim como da divisão social do trabalho, sua cultura. Logo, também há a relação homem-Natureza-Cultura.

O Existencialismo segundo Jean Paule Sartre

A distinção entre essência e existência corresponde a distinção entre conhecimento intelectual e conhecimento sensível. Os sentidos põem em contacto com os seres particulares e contingentes, únicos que realmente existem, ao passo que a inteligência permite aprender as ideias ou essências, géneros e espécies universais, meras possibilidades de ser, em si mesmas inexistentes. Sabe-se, no entanto, desde Sócrates, que o objecto da ciência é o universal e não o particular, quer dizer a essência e não a existência. Platão tenta resolver essa contradição hipostasiando as ideias, atribuindo-lhes a realidade, no mundo supra-sensível ou topos ouranoú (lugar do céu). Poder-se-ia dizer que é em nome da existência que Aristóteles critica a teoria platónica das ideias, sustentando que as ideias, ou essências, não estão fora mas dentro das próprias coisas, as quais, feitas de matéria e de forma, contem, em si mesmas, o universal e o particular, a essência e a existência.

Em oposição as filosofias que se poderia chamar 'essencialistas', as filosofias existencialistas partem do pressuposto de que a existência e anterior a essência, tanto ontológica quanto epistemologicamente ,quer dizer tanto em relação ao ser, ou à realidade, quanto em relação ao conhecimento. Na perspectiva do existencialismo, as ideias, ou as essências, não são anteriores às coisas, pois não se acham previamente contidas nem na inteligência de Deus nem na inteligência do homem. As ideias, ou essências, são contemporâneas das coisas, são as próprias coisas consideradas de determinado ponto de vista, em sua universalidade e não em sua particularidade. Síntese do universal e do particular, o indivíduo existente é redutível ao pensamento, ou inteligível, na medida em que contem o universal, a essência humana, por exemplo, nesse homem determinado, e irredutível, enquanto particular, esse homem com características que o distinguem de todos os demais e o tornam único e insubstituível.

A afirmação da anterioridade ou do primado da existência em relação a essência, entendida aqui como existência humana, implica uma série de teses que distinguem o existencialismo das filosofias essencialistas. O primado da liberdade em relação ao ser, subjectividade, em relação a objectividade, o dualismo, o voluntarismo, o aticismo, o personalismo, o antropologismo, seriam algumas das características desse tipo ou modalidade de filosofia. O existencialismo não é nem uma teologia, ou filosofia de Deus, nem uma cosmologia, ou filosofia do mundo, da natureza. O existencialismo é, fundamentalmente, uma antropologia, quer dizer, uma reflexão filosófica sobre o homem, ou melhor, sobre o ser do homem enquanto existente.

Na perspectiva antropológica, surgem os temas ou problemas característicos do pensamento existencial. A finitude, a contingência e a fragilidade da existência humana; a alienação, a solidão e a comunicação, o segredo, o nada, o tédio, a náusea, a angústia e o desespero; a preocupação e o projecto, o engajamento e o risco, são alguns dos temas principais de que se tem ocupado os representantes do existencialismo. Para essa filosofia, a angústia e o desespero, por exemplo, deixam de ser sintomas mórbidos, objectos da psicopatologia, para se tornarem categorias ontológicas que propiciam acesso á essência da condição humana e do próprio ser.

A ideia de existência, como já se observou, não é nova. Com a mesma palavra, ousía , Platão designa a essência e a existência, e a crítica de Aristóteles ao idealismo platónico pressupõe o hilomorfismo, ou teoria do ser entendido como existente, feito de matéria e de forma. Platão, sem dúvida, é idealista, mas é uma experiência existencial, a vida e a morte de Sócrates, que o leva a filosofar.

O Existencialismo segundo Vergílio Ferreira

"O existencialismo ergue o seu protesto, afirmando que o Homem é pessoalmente, individualmente, um valor; que a sua liberdade (em todas as suas dimensões e não apenas em algumas) é uma riqueza, uma necessidade estrutural de que não deve perder-se entre a trituração do dia-a-dia; e finalmente que, fixando o homem nos seus estritos limites, só por distracção ou imbecilidade ou por crime se não vê ou não deixa ver que ao mesmo homem impende a tarefa ingente e grandiosa de se restabelecer em harmonia no mundo, para que em harmonia a sua vida lucidamente se realize desde o nascer ao morrer.
Possivelmente gostaríeis ou teríeis curiosidade de me ouvir falar de mim, já que vou sendo insensivelmente investido na qualidade de uma espécie de delegado nacional ou regional do Existencialismo. Mas eu jamais me disse "existencialista", embora muito deva à temática existencial e pelo Existencialismo tenha manifestado publicamente o maior interesse. É que aceitarmos um rótulo automaticamente obriga a aceitar-lhe todas as consequências, entre as quais a de nos responsabilizarmos por tudo quanto sob este rótulo se disser ou fizer.
Por mim, preferia definir o Existencialismo como a corrente de pensamento que, regressada ao existente humano, a ele privilegia e dele parte para todo o ulterior questionar. Ou então - e paralelamente ou implicitamente a essa definição - preferiria dizer, continuando Sartre, aliás, que o Existencialismo é uma corrente do pensamento que reabsorve no próprio "eu" de cada um toda e qualquer problemática e a revê através do seu raciocinar pessoal ou preferentemente da sua profunda vivência. Aí se implica portanto que nenhum questionar se estabelece em abstracto, de fora para dentro, mas antes se retoma a partir da nossa dimensão original, ou seja, verdadeiramente, de dentro para fora."

F. Vergílio, Espaço Invisível II
CEPTICISMO

O cepticismo nasce da fragmentação da mente. É a postura do covarde ou do preguiçoso que, por não querer fazer o esforço de saber, tenta provar que é impossível saber. Com esse objectivo, a mente céptica produz impasses de difícil refutação, não tanto pelos esquemas argumentativos que os suportam, mas principalmente pelo estado de ânimo de desconfiança que os produz. A desconfiança suscita objecções e mais objecções, e quando todas foram respondidas, sua insegurança não se aplaca e ela continua a apresentar novas objecções, sem se dar conta de que são apenas variações das já respondidas. A discussão com o céptico não tem fim — não por causa da força de seus argumentos, que em si são fracos, mas por causa do medo abissal que os produz, e que não pode ser curado mediante argumentos.
No entanto, enfrentar as objecções cépticas é o começo do aprendizado filosófico. A capacidade humana de formular dúvidas é inesgotável, assim como a capacidade de aprofundar, enriquecer e tirar consequências do que sabe. O caminho da dúvida, entretanto, é mais fácil, porque mecânico e automático: basta deixar a mente pensar sozinha que a dúvida se auto propaga como se fosse um vírus – daí o prestígio barato do cepticismo e do relativismo. Já a certeza e a evidência não se auto propagam, não podem ser obtidas a contra gosto. Exigem atenção. Exigem a convergência de várias faculdades intelectuais em torno de um objecto, o que requer esforço.
A fenomenologia de Husserl é uma tentativa de dar fundamentos apodícticos ao conhecimento. A fenomenologia não se interessa por argumentos, mas sim pela descrição precisa de fenómenos, do que aparece, do que acontece ante a consciência cognoscitiva. Por exemplo, como descrever este gato? Como é que você, ao vê-lo, sabe que é um gato? O que se passa precisamente neste acto de conhecimento? O que é que está subentendido nesse reconhecimento, pelo qual podemos dar a um fenómeno particular o nome de uma essência geral? O que se passa precisamente quando se formula um juízo, quando se diz que isto é aquilo, que a "é" b? A fenomenologia só se ocupa das essências, entendidas como o objecto do ato de conhecimento.
A fenomenologia trata da descrição de fenómenos, entendidos como actos de conhecimento, no sentido puramente cognitivo e não psicológico. As descrições que se utilizam de recursos psicológicos deixam de fora o objecto do conhecimento, ou o admitem como pressuposto. A imensa complicação das exposições fenomenológicas vem da dificuldade de se descrever os fenómenos em si mesmos, tais como aparecem, independentemente de explicações psicológicas do ato de conhecimento.
Por exemplo, o que é uma dúvida? A resposta provavelmente descreverá o estado psicológico de dúvida, e não aquilo que faz com que a dúvida seja dúvida em vez de certeza, probabilidade ou conjectura. Na verdade, qualquer explicação de um estado psicológico pressupõe saber do que está se falando, isto é, pressupõe o conhecimento das essências do que se fala. A explicação psicológica é, neste sentido, segunda ou derivada, e não primeira e fundamental como a descrição fenomenológica.
Que é um juízo de identidade? Que é quantidade? Ou melhor, quando você pensa quantidade, "em quê" está pensando? Não "como" está pensando, mas "em quê" está pensando? Qual o conteúdo intencional a que se refere o pensamento? Onde está a "redondidade" do redondo? Que é círculo? Há uma definição geométrica de círculo, mas esta definição é apenas uma convenção que nomeia um conceito intuitivo prévio. Qual é o conteúdo deste conceito intuitivo de circularidade no qual se baseia a definição geométrica?
Dito de outra forma, a fenomenologia se ocupa da pergunta: "o que é?", quid est?, independentemente de saber se o objecto que se investiga "existe" ou "não existe". Essa pergunta é decisiva em todo o processo filosófico. A experiência da fenomenologia mostra que muitas vezes se discute por séculos um assunto sem se perguntar "o que é".
Cabe assinalar que a filosofia começou com essa pergunta. Era a pergunta de Sócrates. Por exemplo, o que é a justiça? Sócrates criou o que entendemos hoje por definição. Passados no entanto 2500 anos, a fenomenologia verifica que a definição no sentido socrático-lógico não é suficiente, pois se baseia num conteúdo intuitivo prévio, que precisa ser descrito tal como se apresenta, antes que se possa formalizar o esquema verbal que o define.
A definição no sentido socrático – género próximo e diferença específica – delimita uma intuição prévia, marcando seus limites no quadro geral da classificação dos géneros e espécies, mas não descreve plenamente o conteúdo da intuição pelo qual o conhecemos.
Platão e Aristóteles aperfeiçoam a definição, mas apenas no sentido técnico. Platão introduz o método da divisão. Aristóteles transforma a conceituação na demonstração, na prova. No entanto, esses métodos não resolvem a questão do conteúdo intuitivo prévio. Qual é o conteúdo intuitivo no qual se baseou a definição, a divisão, a conceituação, etc? Ou, mais simplesmente: de que estamos falando?
Sob certo aspecto, a fenomenologia dá um passo "para trás", ao exigir muito mais rigor e riqueza nos conteúdos, no sentido de preencher os conceitos com conteúdos intuitivos. A crítica que se pode fazer da fenomenologia é que ela se apresenta como uma colecção de monografias de conceitos isolados. Por exemplo, Max Scheler trata da inveja, do rancor, etc. Mas não chega a constituir uma filosofia, no sentido sistemático. Por outro lado, acostumando-se a descrever meticulosamente o que está implícito nos actos cognitivos, a discussão filosófica tem um aprofundamento extraordinário, como pode se depreender, por exemplo, da Fenomenologia da Consciência de Tempo Imanente de Husserl.
A maior parte das pessoas ignora isso e não imagina a importância dessa riqueza descritiva. Imaginam que descrição é assunto da arte e se enganam, pois a arte só produz análogos. A arte apenas refere, alude. Por exemplo, em toda a literatura universal não há nenhuma descrição de um estado psicológico humano, mas apenas referências analógicas a tal ou qual estado, não em si mesmo, mas tal como foi vivido por tal ou qual personagem em particular, sem levar em conta que o mesmo estado, exactamente o mesmo, poderia se apresentar num outro personagem sob vestes analógicas diferentes, sem deixar de ser "o mesmo". O ciúme de Otelo não é igual, artisticamente, ao do Paulo Honório em S. Bernardo, de Graciliano Ramos. Qual é, então, o esquema invariante que permite reconhecermos, por trás das diferenças entre suas respectivas simbolizações literárias, o mesmo estado?
Colocado de outra forma, a fenomenologia se ocupa em abrir o ato intuitivo e mostrar o que há dentro dele, ou, de outra forma ainda, em descrever o conteúdo da intuição e não apenas se referir simbolicamente a ele. Para tanto, a fenomenologia usa a linguagem de forma diferente das formas quotidianas, científicas, literárias ou filosóficas. Mas é um uso que pretende desdobrar as implicações lógico-racionais de um conteúdo que, no entanto, na prática é captado de maneira intuitiva e imediata. Ou seja, é a tomada de consciência do que se passa no ato cognitivo. Neste sentido, a fenomenologia é uma auto-reflexão e um auto conhecimento. É o auto conhecimento da consciência, enquanto capacidade cognitiva. É saber o que é saber, saber o que se passa, efectivamente, no ato de intuição. Que isso tem um tremendo poder curativo é algo que os psiquiatras e terapeutas perceberam há tempos, daí a quantidade de terapias baseadas na fenomenologia.
O tema tem outros desdobramentos. Por exemplo, o que se passa precisamente na percepção sensível? O que significa "ver"? Agora, estou vendo um isqueiro. Mas no mesmo ato há também o reconhecimento da forma de uma essência, e portanto não se trata de um ato puramente visual. Como é que no mesmo ato se vê e se reconhece, sem ser necessário pensar para isso? Em que consiste este reconhecimento, que está mais ou menos subentendido em todo ato de conhecimento?
Husserl diz que a atitude do fenomenólogo é diferente da atitude natural, a qual acumula actos cognitivos sem se ocupar com os mesmos nem com a consciência, mas apenas com os conceitos dos objectos intuídos. Esse retorno à consciência marca a atitude fenomenológica. Por exemplo, o que se passa no reconhecimento do sentido de uma palavra? E quando são palavras de outro idioma? E quando são apenas aglomerados de sons que não são palavras? Como é que as reconhecemos de forma imediata? Raramente paramos para examinar estes actos e descrever "o que" nos apresentam. Uma coisa é realizá-los, outra conhecê-los.
Husserl diz que a fenomenologia descreve o modo de apresentação dos objectos. Por exemplo, um hipopótamo e uma crise económica se apresentam a mim de formas diferentes. Em que consiste precisamente esta diferença? Mais ainda, a crise económica é um mero ente de razão (com fundamentum in re), mas não do tipo de um dragão alado; logo, também há uma diferença entre os modos de apresentação destes dois objectos. Coleccionando todos os modos de apresentação que existem para o ser humano, chegaremos aos vários tipos de seres (ou essências) que podem se apresentar, e temos então uma ontologia geral subdividida em ontologias regionais. A ontologia tem de ser bem ampla e bem amarrada em todos os seus pontos para poder abarcar todas as chaves que se intercalam entre um hipopótamo e uma crise económica.

§ 2. A coisa-em-si kantiana
Quando não se têm os modos de apresentação bem classificados, os modos podem ser trocados acidentalmente. Imagine alguém falar do hipopótamo como se fosse uma realidade do mesmo tipo de uma crise económica. É de uma confusão dessa ordem que vai surgir a famosa coisa-em-si kantiana, que é a coisa "independente do conhecimento que temos dela". É a coisa "fora" do sujeito, de todo sujeito cognoscente possível. Para a fenomenologia isto é ridículo: supor que a verdade de uma coisa apresentada é uma outra coisa que jamais pode se apresentar. Ora, se ela jamais pode se apresentar ela não existe para ninguém, não afecta ninguém e não age. E como pode ser que essa parte que não afecta nem age seja mais real que a parte que afecta e age? Está aí uma forte objecção à coisa-em-si kantiana, baseada na consciência do modo de apresentação.
Segundo Kant, a coisa-em-si é o segredo que está dentro da coisa, que é a coisa na sua consistência interna, independentemente do nosso conhecimento. Ou seja, é a coisa na sua pura objectividade, desligada de qualquer subjectividade. Ora, essa noção é inconsistente e auto contraditória. Coisa é aquilo que tem a capacidade de ser fenómeno; se não a tem, não pode se mostrar de maneira alguma para ninguém, e não pode, portanto, transmitir nenhuma informação de si a qualquer outro ser. É uma coisa absolutamente irrelacionada e irrelacionável. Quantos seres poderiam atender a esse requisito? Só o nada. Logo, a noção de coisa-em-si corresponde exactamente ao nada. Nenhum ser atende ao requisito da coisa-em-si, porque sendo ela o totalmente irrelacionado, só pode existir como suposição negativa. Tão logo se lhe atribua alguma característica real, a coisa deixa de ser a coisa-em-si e passa a ser algo para algum outro. Mas esta capacidade de existir para o outro é a existência mesma. O que existe é aquilo que tem alguma relação com outras coisas que existem e o totalmente irrelacionado só pode não existir, ou existir como conceito vazio, ou seja, nada. Não faz sentido, portanto, dizer que a coisa-em-si é mais real do que o fenómeno.
Cabe observar que quando Kant enuncia o conceito da coisa-em-si, ele parece fazer algum sentido porque expressa uma impressão subjectiva que temos, de que conhecer efectivamente as coisas seria conhecê-las "por dentro". Agora, supor que o gato por dentro seja mais gato que o gato por fora não faz sentido. Virar o gato pelo avesso esclareceria alguma coisa sobre ele?
A fenomenologia se pauta pelo respeito ao modo de apresentação das coisas. Em vez de suposições, as coisas são tomadas como estão. O que interessa não é o "gato-em-si", mas a presença do gato, aquilo que aparece e que se faz reconhecer como gato. Esta é a essência do gato. Esse é o em-si do gato, que consiste em aparecer como gato para quem seja capaz de percebê-lo como gato.
Uma pedra, por exemplo, não reconheceria o gato. Mas faz parte da essência do gato não ter a capacidade de notificar a pedra de que é um gato. Assim como faz parte da essência da pedra não ter a capacidade de reconhecer um gato. Ou seja, os modos da apresentação coincidem com os modos de ser das coisas. O que significa que não existe nada cujo modo de apresentação seja falso, ou que seja apenas uma aparência com relação à essência, porque o modo de apresentação é a própria essência. Não sei se Husserl, ao dizer isso, tinha ideia de que fazia eco a Plotino, mas Plotino diz taxativamente que a essência de um ente, em vez de ser um misterioso x oculto no fundo dela, é o seu aspecto mais evidente, porque é a forma manifestada.
Kant diz que só percebemos através das formas a priori, que são independentes e prévias à experiência, como por exemplo as formas a priori da sensibilidade: espaço e tempo. Ou seja, tudo o que se percebe se dá dentro do quadro das formas a priori do sujeito. Kant pára por aí. Mas e o objecto, para se mostrar? Não precisa deste ou de algum outro quadro? Hartmann, fenomenologista, diz que existem também as formas a priori da apresentação do objecto.
Imagine se não fosse assim. Então o tempo e o lugar em que eu vejo esta pedra seriam formas subjectivas minhas. Fora isso existiria uma "pedra-em-si" que não está em tempo algum e em lugar algum, e que necessita do espaço e do tempo apenas para se mostrar a mim, e não para existir. Bella roba! Uma pedra intemporal e inespacial que se temporaliza e espacializa só para mim. Ora, então não é pedra! Porque a verdadeira pedra é aquela que está no tempo e no espaço, para que eu a perceba no tempo e no espaço. Portanto o em-si da pedra é exactamente essa capacidade de se apresentar a mim desta maneira. Logo, o que chamei de fenómeno é, na verdade, a essência da pedra, ou seja, a coisa aparentemente mais superficial é a mais profunda. A capacidade máxima da pedra é de apresentar-se como pedra a quem seja capaz de apreendê-la como pedra.
Mas Kant diz que do mundo exterior só recebemos informações caóticas, que ordenamos nas formas do espaço e tempo. Ele está supondo, então, que podemos receber dados de uma pedra caótica para depois lhe dar uma unidade projectiva no espaço e no tempo. Mais uma vez, enganou-se. Não é o sujeito que ordena. A pedra se apresenta na forma de pedra, que inclui sua própria ordenação no tempo e no espaço. Não fosse assim, não seria uma pedra. A "pedra-em-si", sem as formas de apresentação, é inconcebível como pedra. Pode ser uma ideia pura platónica, um pensamento de Deus, mas não uma pedra. A pedra tem um em-si que não depende do sujeito, que é exactamente a sua capacidade de apresentar-se como pedra, capacidade que o sujeito não poderia dar a ela. Depende do sujeito a capacidade de percebê-la, mas a visibilidade da pedra está nela, e não no sujeito. Se estivesse no sujeito, ele é que seria pedra, com visibilidade de pedra. Um sujeito cego não anula esta visibilidade: é importante que não se confundam as formas a priori do sujeito com as formas do objecto. As formas do sujeito não determinam as formas do objecto.
Além disso, é ridículo dizer que os dados se apresentam soltos, isolados, e que nós é que nos sintetizamos. Hume, por exemplo, pretendia que, ao ver uma bola de bilhar bater em outra e causar seu movimento, vemos apenas o movimento da primeira seguido do movimento da segunda, e que sintetizamos os dois mediante a ideia de causa. Ridículo. Vemos um fenómeno único, coeso, e em seguida o decompomos em duas fases. Entre o movimento da primeira bola e o da segunda não há um intervalo: somos nós que, por abstracção mental, separamos dois movimentos que na verdade se apresentaram unidos. A noção de causa não é "projectada" pela mente sobre os objectos para colar partes separadas. É obtida por separação, por abstracção, por análise daquilo que se apresentou junto e coeso. Os dados vêm juntos, nós é que os separamos — exactamente ao contrário do que diz Hume, endossado por Kant.
A fenomenologia, em vez de perguntar, como Kant, se o conhecimento é possível, pergunta antes o que é o conhecimento, o que é o ato de conhecer, o que se passa precisamente quando se conhece alguma coisa. Estas perguntas, uma vez colocadas, já resolvem muitos dos problemas levantados pelos filósofos críticos e cépticos.
§ 3. A identidade de ser e conhecer
Ao lado e sobre isso, eu acrescento a seguinte perspectiva, que é um dos pontos essenciais da doutrina metafísica que defendo: não faz sentido definir o conhecimento como uma relação entre o sujeito e o objecto, uma vez que isto pressuponha a existência do sujeito e do objecto fora e independentemente da potência do conhecer. Ora, é exactamente esta potência de conhecer e de ser conhecido que define sujeito e objecto. Portanto, a realidade em si não é nem objectiva, nem subjectiva, porque ser realidade é ter a capacidade de se desdobrar nesses dois aspectos. O conhecer, como potência, é prévio ao sujeito e ao objecto. Ser realidade é ter a capacidade de se apresentar a alguém, o qual também tem de ser real. Portanto, essa dicotomia sujeito-objeto faz parte da estrutura da realidade. Só é real o que admite esta distinção.
Deus, por exemplo. Deus conhece a si mesmo. Mas há, obviamente, uma distinção entre o que é conhecido e o que conhece, ainda que esta distinção seja só relacional. Uma coisa é Ele ser, outra coisa é Ele conhecer-se. Estes actos são formalmente distintos, embora não sejam distintos no tempo nem no conteúdo. Se não houvesse a possibilidade de distinguir entre esses dois aspectos — ser e conhecer —, não haveria sentido em dizer que Deus se conhece. Mas, por outro lado, esta distinção também é conhecida, e faz portanto parte do ser, e portanto é real.
Só pode ser conhecido o que é real, sob algum aspecto, e só pode ser real, aquilo que pode ser conhecido. Suponhamos algo que não pode ser conhecido de maneira alguma, essencialmente. Ora, se não pode ser conhecido de maneira alguma então este algo não se relaciona com nenhum outro ser. Não transmite informação a nenhum outro ser. Existir é transmitir informação, logo esse algo não existe.
Esta informação pode ser transmitida do ser para ele mesmo, como por exemplo aquilo que cada um sabe a seu próprio respeito. A essência do ser, então, consiste em conhecer-se, logo não há distinção entre o ser e o conhecer, mas apenas uma distinção relacional: são dois aspectos do ser. E essa distinção só existe do ponto de vista subjectivo humano.
O ser, verdadeiro, real, consiste em conhecer-se. Mas se é verdadeiro é porque é conhecido, e se é conhecido é porque é verdadeiro. Isto se aplica tanto a mim quanto à coisa da qual estou falando. Se não sou real, não posso conhecer. E se a coisa da qual estou falando também não é real, ela não pode ser conhecida. Ora, de onde tirei essas distinções? Do próprio conceito de conhecer. Logo, o conhecer é prévio a tudo isto. O conhecer é receber informação, o ser conhecido é emitir informação. Esta capacidade de receber e emitir informação é simultânea. Só o que emite informação pode receber informação. Emitir informação é relacionar-se de algum modo com outro ser, da mesma forma que receber informação também é relacionar-se de algum modo com outro ser. A capacidade de emitir e a de receber informação não se separam, apenas se distinguem. Não pode existir uma sem a outra.
O tempo todo se verifica esta identidade do ser e do conhecer. Já a distinção sujeito-objeto é meramente funcional, descritiva. Num determinado ato de conhecimento, um dos entes actua como receptor de informação e o outro com emissor. Mas o que é receptor também é emissor, e vice-versa. Uma pedra, por exemplo, recebe várias informações: lei da gravidade, pressão atmosférica, e as informações químicas e cristalográficas que a compõem. Ela apenas não as recebe conscientemente, o que significa que essas informações estão na pedra como elementos constitutivos do seu modo de apresentar-se, não do seu modo de conhecer.
Ou seja, o conhecer é uma relação de troca de informações. Há, no entanto, uma diferença para o caso humano. Nós humanos podemos reflectir sobre a informação recebida, ou seja, não apenas recebemos a informação como também sabemos que a recebemos. Logo, além do conhecimento que recebemos da pedra, recebemos também um conhecimento a nosso respeito, que é o conhecimento de que recebemos o conhecimento da pedra. Este segundo momento, que existe apenas para os humanos, constitui a diferença humana.
Uma pedra, por exemplo, recebe informação de fora, mas não de si própria. Há conhecimento nela, mas ela não emite informação para si própria, ou seja, ela está imune a si mesma. Ela não pode ser afectada por ela mesma, não pode fazer nada para si. Ela é inerme com relação a si. Logo, há uma limitação em seu modo de ser, que corresponde a uma limitação em seu modo de conhecer. A pedra existe deficientemente porque conhece deficientemente.
Do mesmo modo, a existência do ser humano se mostra mais rica, mais plena, mais verdadeira na exacta medida em que mais conhece. O ser humano de pouca consciência existe de maneira ténue e fantasmagórica, afecta pouco o mundo circundante e age pouco sobre si mesmo. Já os que conhecem muito, como por exemplo Aristóteles, Platão, Lao-Tsé, são mais reais, porque conhecem mais, e em consequência actuam sobre uma esfera maior durante mais tempo.
Os fenomenologistas estavam nesta pista. Não sei por que, não chegaram a estas conclusões metafísicas. O próprio Husserl, após passar a vida desenvolvendo o método, se dirige a uma filosofia da consciência que é uma espécie de idealismo filosófico. No entanto, esta não é a única direcção possível a partir da filosofia. Isto é afirmado taxativamente por Roman Ingarden, o grande discípulo polaco de Husserl. Eu próprio teria preferido dar esse passo: existe uma forma de realidade que abrange sujeito e objecto, que se chama conhecer, e esta forma é co-extensiva ao ser, ou seja, a distinção entre o sujeito e o objecto é superada no ato de conhecer. O conhecer não é somente uma relação entre um sujeito dado e pronto e um objecto dado e pronto. A potência de conhecer está na natureza do sujeito assim como a potência de ser conhecido está na natureza do objecto, porém não há o sujeito puro nem o objecto puro, que são meras suposições e conceitos funcionais.
Dito de outra forma, os conceitos de sujeito puro, que só conheceria e nunca seria conhecido, e de objecto puro, que só seria conhecido e nunca conheceria, são negações da realidade. São obtidos por negação das condições que permitem que a realidade seja realidade. A verdadeira realidade é o conhecer, nunca um puro sujeito ou um puro objecto. Sujeito e objecto são decorrentes do conhecer, fundados no conhecer. Então o conhecer é o próprio ser, que tem a capacidade de ser sujeito e objecto ao mesmo tempo.
Mas, se a realidade consiste fundamentalmente no ato de conhecer, precisamos cortar do verbo conhecer todo seu aspecto subjectivo. O conhecer não é algo que se passa no sujeito, apenas. O conhecer se passa no sujeito e no objecto ao mesmo tempo; o objecto não é fisicamente alterado pelo ato, mas ele participa do processo. Se o conhecer, entendido como relação, como unidade dual de sujeito e objecto, é a própria natureza do ser, então essa mesma dualidade una tem de existir no próprio ser; e de fato existe, como aspectos de relações que ele pode ter consigo mesmo. Se assim é, então a gradação do ser é a mesma gradação do conhecer. Ser mais ou menos é conhecer mais ou menos.
Na verdade, a pedra conhece algo de mim. Eu passo alguma informação a ela. No momento em que a vejo, passo a ela um recibo da sua visibilidade, actualizo sua potência de ser vista, respondo a uma informação que ela me transmite. Só que ela não pode repetir essa informação para si e aprofundá-la, então ela tem pouca informação a meu respeito, assim como tem pouca informação a respeito dela mesma. Ela faz mais parte do meu mundo do que eu faço parte do mundo dela, embora eu a afecte. Neste sentido, ela é menos real do que eu. E pelo fato de ser menos real, ela tem algo de fantasmagórico. Quem quer que já tenha ficado sozinho e quieto por muito tempo entre objectos inertes compreende o que estou dizendo.
Essa impressão pode facilmente ser apreendida quando se está sozinho no meio de objectos inertes. Usualmente, quem se encontra nesta situação tende a criar um diálogo interno, ou fica com uma certa impressão de irrealidade, porque as coisas em sua presença são passivas. Elas não existem com a intensidade das coisas verdadeiramente reais. Elas são deficientes. Podemos concluir daí que o que chamamos de alma ou de espírito é a verdadeira substância da realidade. O espírito é o próprio conhecer. A verdadeira natureza da realidade é de ordem espiritual, cognitiva.
Se se compreende o que estou dizendo, compreende-se também que isto nada tem a ver com idealismo filosófico, seja idealismo subjectivo, seja idealismo objectivo. A distinção de idealismo e materialismo é posterior e derivada logicamente em relação a esta minha doutrina, que tanto pode ser usada para fundamentar um quanto o outro, dependendo de julgarmos que o ato espiritual, cognitivo, é material ou imaterial – duas hipóteses que, para mim, não têm a menor importância, aliás nem têm muito sentido.
Todo o universo é um imenso intercâmbio de informações, que circulam e que vão infinitamente além da própria presença espacial dos objectos. Uma pedra, por exemplo, é tudo o que ela já sofreu, é a sua história. Não uma história projectada, mas a história que está nela. Só que para ela, subjectivamente, esta história só existe como resíduo físico, como marcas, pois ela não tem reflexão sobre este passado. Embora traga nela a informação, para ela subjectivamente esta informação não existe, não obstante exista em seu "corpo", digamos, para ser vista por outros seres.
Ora, nós trazemos todas essas marcas, só que não apenas para mostrar a outros seres, mas para nós mesmos. Somos, portanto, duplamente reais: para os outros e para nós mesmos. A pedra não, só é real para os outros. Neste sentido, ela é menos real. Ela acumula informação que circula do mundo para ela e dela para o mundo, mas não dela para ela, sendo que esta última, a informação de si para si, é a que dá a dimensão de interioridade ou consciência.
Basta essa constatação para verificar o quanto é estúpida qualquer tentativa de negar a consciência. Consciência é a simples transmissão interna de informações, transmissão que se realiza da periferia para o centro, do inferior para o superior, das partes para o todo. Minha definição de consciência não tem nada a ver com a distinção entre mente e corpo, que é a base de infinitas confusões das quais um Richard Rorty, por exemplo, se aproveita para negá-la.
Ora, se a verdadeira presença dos objectos consiste em emitir e receber informação, então aquele que acumula mais informação emitida, recebida e processada de si para si é mais real. Tem uma dose maior de realidade porque tem uma dose maior de circulação de informações, mais contacto entre as partes e o todo, entre centro e periferia. Neste sentido, este desenvolvimento a partir da herança fenomenológica seria, se fosse preciso nomeá-lo com nomes de categorias tradicionais que a ele não se aplicam bem, um verdadeiro "idealismo materialista".
Na verdade, as próprias noções de matéria e mente ficam subordinadas a essa noção de emitir e receber informação. Qual seria o maximamente real? Aquele que emitisse e recebesse toda informação. Este seria o universo considerado como um em-si, não apenas como um objecto – o universo que me inclui e dentro do qual eu exerço minha consciência. Logo, esta minha consciência é um atributo deste mesmo universo, a minha e todas as outras consciências particulares, das quais o universo toma consciência em si mesmo, através dessas mesmas consciências particulares que, estando nele, são dele. Ou seja, toda consciência humana é consciência que o universo tem de si mesmo – apenas restando saber se elas são recolhidas num centro, se somos nós mesmos o centro ou se o universo é apenas coisa, com um para-si ténue ou inexistente – um caso que não precisamos resolver aqui de imediato. Nossa consciência seria a dose de consciência que existe nesta parte do universo, sem contar que podem existir outras. Logo, o universo considerado, não como presença física actual, mas como toda a massa de informação, é a máxima realidade, desde que esse universo tenha um centro capaz de tornar essa massa um para-si — ainda que esse centro sejamos nós mesmos.
E Deus? Se imaginarmos um Deus transcendente ao universo, um Deus que não fosse o próprio Universo, mas que estivesse fora dele, estaria Ele fora necessariamente e sempre, ou seria um aspecto transcendente do próprio Universo? Ora, é claro que Ele é um aspecto do Universo que não pode se reduzir a nenhuma de suas partes e que é de certa forma transcendente a si mesmo, porque inclui toda a possibilidade ainda não realizada no universo físico. Essa possibilidade existe, e ela tem de se auto conhecer. Imagine se assim não fosse: a possibilidade transcendente que desconhece a si mesma e que só nós, seres humanos, conhecemos. Um materialista compreenderia assim. Mas se só nós a conhecemos ela é conhecida, ainda que apenas em nós. Teríamos então o conhecimento desta possibilidade, sem a possibilidade de realizá-la. O Universo teria a possibilidade e não poderia conhecê-la, havendo dentro dele quem a conhecesse sem ter a possibilidade de realizá-la. Se entendemos que essa omni-possibilidade inclui as possibilidades de consciência, entendemos também que essa hipótese materialista é absurda.
Logo, é claro que o Universo se conhece. A parte dele que se conhece mas que não está realizada ainda, e que talvez não se realize nunca, nós chamamos de aspectos transcendentes de Deus. Para ser transcendente, não é preciso ser transcendente a tudo.
Se existe consciência dentro do Universo, existe consciência no Universo. Fatalmente, esta consciência transcende todas as consciências particulares que estão lá dentro, porque senão haveria apenas consciências particulares e não sua conexão, e não obstante elas estão conectadas realmente, pelo fato de estarem no mesmo lugar, ter a mesma história, etc. Assim sendo, não podemos admitir que exista alguma conexão central real dentro do universo que não seja auto conhecida também, embora não por esta ou aquela consciência particular. Daí se conclui a necessidade absoluta de uma consciência não apenas cósmica, mas supra cósmica, porque se fosse apenas cósmica estaria limitada àquilo que o universo já é e não teria nenhuma possibilidade acima de si. O universo não teria a capacidade de superar-se, coisa que sabemos que ele tem: geração de novas estrelas, galáxias, etc.
Ou seja, a necessidade de uma consciência supra cósmica e de um poder supra cósmico de realizá-la é absoluta. A existência de Deus é uma evidência para quem encara a coisa da maneira certa, é absolutamente necessária e é absolutamente inconcebível que seja de outra maneira. Cada frase que se pronuncia, cada sentença de qualquer ciência exige isto.
As pessoas não percebem essa necessidade porque não relacionam uma coisa com outra, ou porque têm a ingénua pretensão de que sua ciência vai encontrar o mistério do universo que seja desconhecido pelo próprio universo. Ora, quando você começou a formar sua ciência, você já está dando por subentendido que a explicação do universo está no universo, e não apenas dentro do departamento onde o cientista trabalha, magicamente isolado do universo. A própria possibilidade de fazermos ciência está dentro do universo. Ninguém sai do Universo para fazer ciência ou o que quer que seja. Essas ideias confusas vêm de uma noção equivocada de objectividade, que a entende como se colocar fora do problema, quando a verdadeira objectividade consiste em saber onde precisamente se está, dentro do problema. Do contrário, seria como se Hamlet, para conhecer o rei ou Ofélia, precisasse sair da peça. A objectividade consiste na descrição exacta das posições recíprocas, e não em sair de todas as posições e observar como se estivesse de fora.
Estando de fora, sem nenhuma relação com o objecto observado, não há sequer como observá-lo. A ideia do "puro observador" é uma auto contradição, porque sem relação não há conhecimento. O conhecimento é a relação, e esta relação, entendida não como junção posterior de termos já dados, mas como reciprocidade necessária de termos coexistentes, é a estrutura mesma do ser, que consiste em auto consciência e nada mais, independentemente de questões inócuas como a de saber se é material ou mental.
Eis os princípios da metafísica que defendo.
Ao fim de algum tempo sem escrever aqui, e após a febre dos blogs terem ligeiramente passado, decidi, investir um pouco mais neste Blog...

Aqui irei de alguma forma descrever algo que me interessou, que gostaria de partilhar com alguem.

sábado, junho 25, 2005

Madrugada
Tonight I Have No Words For You


Tonight I have no words for you
Made a promise to say so much
Oh I can only steal from you
What already belongs to us
I would like to sing a firestorm
And not some rich and soothing well
Well all such lines are forbidden now
And it's you I cannot touch

Well you know that it ain't true
I don't care 'bout me and you
See the sky is so deep
And I dare not go to sleep

I would like to come unmasked for you
I wanna come without a lie
It was this voice and pen I used
To make myself a man
Now if you could try and reach inside
And tear apart this sad cocoon
Oh I will again be that moon for you
And we too will be like sand

Well you know that it ain't true
I don't care 'bout me and you
See the sky is so deep
And I dare not, dare not, well go to sleep you know

You know it just might change
You don't wear these checkers and chains
You know it won't come on
You know the government's coming along
You know it just might change
You don't wear these checkers and chains, checkers and chains
Well alright

Now I ain't being cold
You know it's only that just now
Seems obvious the hands that fell
Are the hands that will soon knock down
Well tonight I see the skyline
As the skyline lights a mountain range
Tomorrow night it just might have changed
The other way around

Well you know that it ain't true
I don't care 'bout me and you
See the sky is so deep
And I dare not, dare not, well go to sleep you know

You know it just might change
You don't wear these checkers and chains
You know it won't come on
You know the government's coming along
You know it just might change
You don't wear these checkers and chains, checkers and chains
Well you know

You know it just might change
You don't wear these checkers and chains
You know it won't come on
You know it won't come on, come on
You know it just might change
You don't wear these checkers and chains, checkers and chains
Well alright

In The Woods - I Am Your Flesh

My eyes are closed
I feel alone
there is something
inside me
dripping and screaming

how can I feel love
when love was something
I never had?

talk to me-do you know
me, and who I am
I am your flesh,
remember me

tell me who I am,
and I will tell you
what is behind that
door; there is a child
who is waiting for you
No one to touch
no one to hold
I am alone, fighting
against this disease
I lost my eyes
I lost my head
I lost my flesh and
my heart
-who made me? you made me
I lost my blood
I lost my love
I lost my feelings, and
I am losing my mind

The child's blood was made
by you, do not blame him
the killing were made by you,
do not blame him

Closed my eyes, left me
alone-remember
A drug composed with
the things that you do
drowning in words, though
they never came through

terça-feira, junho 21, 2005

Le Mort joyeux


Dans une terre grasse et pleine d'escargots
Je veux creuser moi-même une fosse profonde,
Où je puisse à loisir étaler mes vieux os
Et dormir dans l'oubli comme un requin dans l'onde.

Je hais les testaments et je hais les tombeaux;
Plutôt que d'implorer une larme du monde,
Vivant, j'aimerais mieux inviter les corbeaux
À saigner tous les bouts de ma carcasse immonde.

Ô vers! noirs compagnons sans oreille et sans yeux,
Voyez venir à vous un mort libre et joyeux;
Philosophes viveurs, fils de la pourriture,

À travers ma ruine allez donc sans remords,
Et dites-moi s'il est encor quelque torture
Pour ce vieux corps sans âme et mort parmi les morts!

Charles Baudelaire

quinta-feira, junho 16, 2005

PENSO QUE PENSO
[Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]

Caminho em silêncio
Distraído por um pensar
Que me turba o andar
Penso que penso
E fico a ouvir-me a pensar
Que penso que penso
Este pensamento
Torna-se um tormento
Penso que penso
Que penso que penso
Sempre o mesmo a dobrar
Como vozes a segredar
Penso que penso
Que penso que penso
Que ainda vou flipar
Flipar

ESTOU FARTO DE MIM ESTOU FARTO DE MIM
ESTOU FARTO DE MIM ESTOU FARTO DE MIM

Já não posso mais andar
Com tanta voz a murmurar
Levado pelo vento
Penso que penso
Que penso que penso
Que penso que penso
E se penso em parar
É mais um pensamento
Que me fica a ecoar
Outra voz a segredar
Outra voz a murmurar
Murmurar...

Murmurar murmurar murmurar murmurar murmurar murmurar murmurar
Murmurar murmurar murmurar murmurar murmurar murmurar murmurar

ESTOU FARTO DE MIM ESTOU FARTO DE MIM
ESTOU FARTO DE MIM ESTOU FARTO DE MIM

terça-feira, junho 14, 2005

TU DISSESTE
[Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]

Tu disseste "quero saborear o infinito"
Eu disse "a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis"
Tu disseste "sentir a aragem que balança os dependurados"
Eu disse "é o medo o que nos vem acariciar"
Tu disseste "eu também já tive medo. muito medo. recusava-me a abrir a janela, a transpôr o limiar da porta"
Eu disse "acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala"
Tu disseste "um dia fiquei sem nada. um mundo inteiro por descobrir"
Eu disse "..."

Eu disse "o que é que isso interessa?"
Tu disseste "...nada"

Tu disseste "agora procuro o desígnio da vida. às vezes penso encontrá-lo num bater de asas, num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon. escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo. depois queimo tudo e prossigo a minha busca"
Eu disse "eu não faço nada. fico horas a olhar para uma mancha na parede"
Tu disseste "e nunca sentiste a mancha a alastrar, as suas formas num palpitar quase imperceptível?"
Eu disse "não. a mancha continua no mesmo sítio, eu continuo a olhar para ela e não se passa nada"
Tu disseste "e no entanto a mancha alastra e toma conta de ti. liberta-te do corpo. tu é que não vês"
Eu disse "o que é que isso interessa?"
Tu disseste "...nada"

Eu disse "o que é que isso interessa?"
Tu disseste "...nada"

sábado, junho 11, 2005

Bradifasik aka bradifasia
do Gr. bradýs, lento + phásis, palavra, expressão
s. f., lentidão morbida na pronunciação das palavras.

IRRBLOSS


Irrbloss är små lysande lågor som varierar i form och storlek. De rör sig i ojämn takt och ibland stannar de för att snart igen sätta fart. De har förväxlats med älvor och även näcken, men de är i själva verket en lykta som bärs av en Lyktgubbe.
Lyktgubben sägs vara en bonde som fuskat till sig mer mark, till exempel kan han ha flyttat skälmärkena till sin egen fördel.
Som straff får han efter sin död vandra runt och rätta till de misstag han begått. Han är klädd i grönt, grått eller så har han röda byxor och är svart upptill. Han har en lång stav som han stöter ner i backen och säger rätt eller fel. När något märke är fel och han stöter sin stav i marken så slår det en stor låga från den.Det händer att lyktgubben hjälper den som gått vilse genom att lysa vägen åt denne. Men han vill ha något i gengäld, lurar man Lyktgubben kan man råka väldigt illa ut.

sexta-feira, agosto 01, 2003

1ª EDIÇÃO - O QUE É SER ROTO.
1- Estar mais de seis minutos na Internet sem ver gajas nuas. E não valem desculpas de que é a pagar e não sei quê, e que não quero dar o número do cartão de crédito.
2- Pedir meias doses. Se se chama dose, é porque está calculado: é uma dose. Um homem, uma dose. Quem pede meia dose é meio homem. Cozido à portuguesa: é comida de homem. Mas meia dose de cozido... O pior é pedir meia dose de qualquer comida terminada em "inho" ou "inhos": meia dose de bifinhos, meia dose de lulinhas... Comidas que são de homem, para além do cozido: feijoada, mão de vaca, coelho à caçador e todas as partes do porco. Tudo o que tiver porco é de homem.
3- Consolar as ex-namoradas dos amigos. A única maneira de fazer isto de uma forma verdadeira masculina é comê-las no fim. Ou conseguir que elas nos digam quantas é que eles conseguiam dar sem tirar.
4- Chegar aos trinta anos e não ter barriga. É roto!
5- Deixar que sejam elas a pôr o preservativo. Ser ela a pôr o preservativo é como deixar que o adversário nos calce as luvas de boxe antes dum combate. Mas quem é que lhes disse que elas têm direito de mexer na vitalidade de um homem? Após a consulta a um advogado sobre esta questão, estamos em condições de apresentar um parecer:... ... tecnicamente, o pénis é do homem - o que elas têm é um direito de usufruto.

2ª EDIÇÃO - O QUE É SER ROTO.
1- Comer Calippos. As únicas coisas que um homem pode chupar são patas de sapateira e cabeças de pescada.
2- Ter gatos. Um gato não passa dum cão roto.
A: Tem guizo.
B: Toma banho na sua própria língua.
C e última: Um gato nunca se embebeda. Ou seja, um homem que tenha um gato em casa está no fundo a viver uma intensa relação homossexual. O dono dum cão chama-o com dignidade masculina: "Savimbi, anda cá!" E assobia: "Aqui já!" O dono dum gato chama-o "Bsss-bsss-bsss-bsss-bsss, bichaninho".
3- Não ir à caça porque não há sítio para cagar. Um homem caga quando e onde lhe apetece. Quem nunca experimentou atingir um pato a zagalote com as calças em baixo não sabe o que é ser homem. O que as mulheres não sabem é que a caça é apenas uma grande desculpa para o homem poder ir para o mato marcar território...
4- Quem viu o Titanic e prefere a Kate Winslet ao Leonardo DiCaprio é roto! O Leonardo DiCaprio é muito mais mulheraça do que a Kate Winslet. Tem ar de ter uma pele muito mais macia, tem de certeza menos pêlos no rabo e, ainda por cima, um homem saca muitas mais mulheres se disser que anda a comer o DiCaprio do que se disser que anda com a Kate Winslet.

3ª EDIÇÃO - O QUE É SER ROTO.
1 - Ver o correio todos os dias... É roto! Um gajo chega a casa depois de oito horas de trabalho, cansado, cheio de fome e qual é a primeira coisa que faz? Ver se tem cartinhas no correiozinho... Um homem só abre o correio quando lhe cortarem a água, a luz ou o gás. E que homem é que consegue manobrar uma chave do correio...? Aquilo é feito para dedos de mulher.
2 - Pedir bicas pingadas... É roto! Ou bicas escaldadas, ou bicas cheias, ou duplas, ou cariocas, ou mesmo italianas... Bica é bica. A única coisa que se pode acrescentar a uma bica é um bagaço ou um rissol. Mas o pior de tudo são os descafeínados. "Ai, tire-me o café do meu café". É roto!
3 - Deixar que a nossa namorada nos esprema as borbulhas... É totalmente roto! As borbulhas de um homem não são para espremer. Um homem é uma máquina auto-suficiente em termos de saúde e higiene. Os homens só vão ao médico e tomam banho porque as mulheres obrigam.

4ª EDIÇÃO - O QUE É SER ROTO.
1 - Saber o nome de mais de quatro bolos de pastelaria... Um homem que é homem só sabe o nome da bola de Berlim, do bolo de arroz, do pastel de carne e do croissant. Mas só para poder pedir um croissant com panado de carne. Ver um... "homem"... ... entrar numa pastelaria e dizer: "Olhe, embrulhe-me aí dois garibaldis, uma pirâmide, um éclaire..." Com plantéis de 24 jogadores e 16 equipas na primeira liga, quem é que ainda tem espaço na memória para decorar nomes de bolos?
2 - Pescar com cana... É rotíssimo! Outra coisa é sair para o mar com tipos que só conhecem sete letras do abecedário e que julgam que tremoços é marisco. E o fado não é cá para falar de amores de estudante. O fado é para contar histórias com velhas, estropiados, pescadores, putas, sargetas e vinho tinto.
5 - Combinar encontros com homens à porta de cafés cinemas ou centros comerciais. "Ai vem ter comigo à porta da pastelaria "Mirita". Eu não me encontro com um homem à porta de sítio nenhum. Homem que é homem marca encontros é na estrada para Cabanas, no quilómetro dezasseis junto ao cão morto. Mais nada!

6ª EDIÇÃO - O QUE É SER ROTO.
1- Dormir com o cão aos pés da cama. Um cão é para ficar no quintal ou fechado na marquise a ladrar a noite inteira. Os únicos mimos que um homem dá a um cão são ossos de touro e soltá-lo no pombal do vizinho.
2- Usar calçadeira. A calçadeira é a vaselina dos pés! Se um homem tem problemas em enfiar um pé num sapato à força, é claramente roto. Os sapatos foram feitos para andar com 120 quilos em cima a arrastarem-se pela calçada em cima do que acabámos de vomitar.
3- Comer com pauzinhos nos restaurantes chineses. A única coisa delicada que um homem é capaz de segurar nas mãos é uma chave de fendas, e é para a torcer. Nunca ninguém viu um carregador de pianos ou algum operário de altos-fornos a comer com pauzinhos!
4- Usar amaciador para o cabelo. Um homem que se preocupa em ficar bonito quando está de joelhos, tem de ser roto. "Ai, mas é bom porque o cabelo fica mais fofinho..." Um homem que é homem não quer ter nada no corpo que seja fofinho.
5- Ter uma carrinha familiar. Ter uma carrinha é um anúncio público de que se é casado e de que se tem filhos. Ora, o único homem que pode querer que isso se saiba é o roto, para despistar os polícias no parque Eduardo VII.
6 - Usar cigarreira.. "Ai não, é mais higiénico porque os maços apanham humidade e podem contaminar os cigarros com bactérias." Bactérias?! Um gajo anda a descarregar quilos de alcatrão para dentro dos pulmões há dez anos e está preocupado com animais que só se vêem ao microscópio?
7 - Pedir descontos.. "Ai, não me faz uma atençãozinha?" Mas isto é conversa de homem? Isto é conversa de roto. Atençõezinhas é o que os rotos fazem uns com os outros nas casas de banho públicas.
8 - Não ser emigrante e falar francês. O francês é a língua oficial dos rotos e a mais mariquinhas do mundo. Nem uma avó a falar com um recém-nascido usa tantos nhô nhôs e bibidus como um francês.
9 - Ter fotografias da mulher na carteira.. Ter a fotografia da mulher na carteira é comportamento típico de roto. Os rotos andam com a fotografia da mulher na carteira para poderem pensar duas vezes quando a abrem à procura de dinheiro para pagar a travestis.